II- Quanto à orgânica
No texto anterior, não me referi, propositadamente, a dois Ministros, ainda que, por motivos diferentes. Miguel Relvas é, como muitos comentadores fizeram questão de notar, o rosto do aparelho do PSD. Creio nesse particular, não ter grandes motivos para discordar, mesmo considerando que não ser conhecedor muito aprofundado do PSD. Não será, como também inúmeras vozes consideraram, de particular utilidade misturar o partido com o governo, mas é uma opção legítima de Pedro Passos Coelho.
No texto anterior, não me referi, propositadamente, a dois Ministros, ainda que, por motivos diferentes. Miguel Relvas é, como muitos comentadores fizeram questão de notar, o rosto do aparelho do PSD. Creio nesse particular, não ter grandes motivos para discordar, mesmo considerando que não ser conhecedor muito aprofundado do PSD. Não será, como também inúmeras vozes consideraram, de particular utilidade misturar o partido com o governo, mas é uma opção legítima de Pedro Passos Coelho.
Porém, as minhas reservas são outras. Tive oportunidade de ouvir Miguel Relvas, numa “Oração de Sapiência” no ISLA de Santarém em 2004, onde eu próprio leccionei entre 2003 e 2006. E recordo-me que o seu discurso, porque se tratou mais disso do que uma verdadeira Oração de Sapiência, não convenceu a maioria dos presentes. No meu caso, não gostei especialmente do conteúdo da sua intervenção, que me pareceu algo deslocado mas, desagradou-me principalmente, a promoção partidária ensaiada. É evidente que um dia, não são dias e posso ter tido o azar de apanhar Miguel Relvas em dia não. Ficou porém, a má impressão que, até hoje, confesso, não consegui ultrapassar.
Quanto a Aguiar Branco, as razões são diferentes. Não desgostei da sua primeira passagem pelo governo, nem guardo para consigo reservas de qualquer espécie. Porém, o problema aqui, entrando também mais, no tema que me propus abordar, é a existência, em concreto de um Ministério da Defesa, área que, considero, poderia ser perfeitamente enquadrada, num Ministério que agregasse as Relações Externas e o próprio sector da Defesa, ou Segurança Externa, com estatuto de reforçado na orgânica interna do governo, isto é, ao nível de Finanças e Administração Interna.
Salvo melhor opinião, creio aliás, que mesmo os dez ministérios propostos pelo novo Primeiro-Ministro seriam, ainda assim, demasiados. Note-se: uma redução do número de ministérios, como a que defendo, não deveria ser unicamente motivada por questões de poupança. Nada disso. O objectivo aqui visaria, essencialmente melhorar a coordenação inter-sectorial dentro do governo, permitindo uma Administração que, uma vez gerida por áreas/categorias, geraria significativas sinergias entre sectores que se entrecruzam.
Exemplos: vieram já a terreiro, inúmeras vozes contestar o facto do ministério da economia ter agregado também a área do emprego. Óptima medida, creio eu, posto que, emprego e economia são duas faces da mesma moeda e constituem realidades inseparáveis. O erro, na minha perspectiva, foi a não junção ao Ministério da Economia de outras áreas extremamente relevantes e igualmente interligadas, casos da Agricultura, Mar e Pescas[1].
Outro exemplo: economia e educação/formação constituem, queiram ou não, realidades em permanente diálogo. Por esta razão, as áreas da educação, mas especialmente da formação profissional e da investigação científica, ainda que, mantendo-se primacialmente, sob o domínio do Ministério da Educação, terão que “dialogar” com a Economia. Só assim será possível deixarmos de desperdiçar recursos (humanos e financeiros) na formação avançada de profissionais que, não raras vezes acabam a desempenhar funções manifestamente desmotivantes, incompatíveis com o seu nível académico, e que não geram o retorno do investimento (quer pessoal, quer público) que neles foi realizado. Refiro-me em concreto às dezenas de milhar de licenciados que prestam serviço, ora em centros de atendimento telefónico (na linguagem dos versados em línguas estrangeiras, os cal-centers), ora numa qualquer caixa de supermercado. E, estes são os “privilegiados” que não fazem parte do grupo, superior a cinquenta mil, que não conseguem emprego.
Ainda outro exemplo. Não se compreende como a segurança e a justiça possam ter ficado separadas. É vital que, no futuro, estas pastas possam vir a unificar-se, visto que, grosso modo, os pontos de contacto entre ambas são em muito maior número do que as realidades de sentido contrário. Não se compreende, por exemplo, que a Polícia Judiciária (PJ) responda perante o Ministério da Justiça, enquanto que, Guarda Nacional Republicana (GNR) e Polícia de Segurança Pública (PSP), dependam do Ministério da Administração Interna. Não irei sequer, pelo menos para já, porque a este tema regressarei futuramente, reportar-me à extinção de PSP, GNR, PJ, Guarda Prisional, Polícias Municipais (PM) e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e fusão de todas estas forças num único corpo policial, obviamente que, com diferentes unidades altamente especializadas e com diferentes competências mas, em permanente contacto/conexão entre si, posto que, dependentes de um comando único e funcionando (salvo os casos especiais) sob um tecto único. Mas existirem forças de segurança espalhadas por diferentes Ministérios é, claramente, um convite à confusão, ao atropelo e ao aparecimento dos tão famosos “quintais”.
Assim, salvo melhores e diferentes opiniões, ou até futura opinião própria mais amadurecida, porque não pretendo arrogar-me na posse da verdade absoluta e definitiva, uma possível orgânica do governo passaria por:
Ministério das Finanças – mantendo-se, no essencial como está, incluindo a direcção da Administração Pública;
Ministério do Plano, Economia, Emprego e Inovação – agregando os sectores produtivos da economia (agricultura, mar, pescas, indústria e comércio e serviços – incluindo-se nesta lista, o sector do turismo), do emprego (incluindo, em co-gestão o Ministério da Educação, a área da formação e qualificação profissional), da inovação (compreendendo a inovação e a investigação científica), e do plano (envolvendo as obras/investimento público, ambiente e planeamento/gestão e ordenamento do território);
Ministério das Relações Externas (agregando as áreas das relações e rede diplomática, mas também a defesa);
Ministério do Interior (envolvendo os domínios da segurança interna, protecção civil e justiça);
Ministério da Educação e da Cultura (com uma configuração muito próxima da actual, incluindo a área, em regime de competências partilhadas com o ministério da economia, da qualificação e formação profissional, mas também a inovação e investigação científica e, por último a cultura e o património);
Ministério da Solidariedade Social (agrupando todas as funções adstritas ao chamado estado social, incluindo, Serviço Nacional de Saúde e Segurança Social bem como tudo o que tenha que ver com prestações sociais, reformas, subsídios de desemprego, relacionamento e gestão de uma rede racional de instituições particulares de solidariedade social, etc.);
Tratar-se-ia, seguramente de um modelo orgânico de governo que assentaria, basicamente, em dois níveis de coordenação/gestão distintos: o político, desempenhado pelos Ministros e o técnico que caberia aos Secretários de Estado, ou, em alternativa, aos Ministros-Adjuntos, que seriam, num tal arranjo, uma figura híbrida: nem apenas Secretários de Estado, nem totalmente Ministros. Tal ideia, nunca por cá ensaiada, estou em crer, romperia com um conjunto de tabus existentes e, reforçaria, seguramente, por um lado a coesão do governo mas, principalmente, a coordenação entre sectores que carecem de um diálogo permanente.
Ainda assim, e concluindo, parece-me que, a orgânica agora experimentada deu um passo decisivo na direcção certa: equipas pequenas, coesas, e em permanente contacto entre si, com claras vantagens, ao nível da coordenação sectorial e política.
[1] Pois, já sei: passamos da lógica do nano-mini-micro para a do super-hiper-mega. Talvez. Porém, boa parte da dificuldade que as organizações, lato sensu, contemporâneas (incluo aqui, tanto as sociedades, como as empresas e as organizações em sentido estrito) têm hoje de comunicar entre si, decorre precisamente da excessiva, quase obsessiva especialização. Assistimos, nas últimas décadas a um tal nível de especialização do conhecimento, também aqui compreendida numa dimensão amplíssima que, perdemos de vista a perspectiva panorâmica. Boa parte das dificuldades, conflitos e demais disfunções organizacionais hodiernas, decorrem justamente dessa incapacidade de conseguirmos criar interacção e fluxos informacionais entre o micro e o macrocosmos. Boa parte dos avanços e dos conhecimentos que à micro escala se conseguem adquirir, não são posteriormente aproveitados para benefício de todos porque, nos fluxos ascendente/descendente que se deveriam posteriormente gerar, algures no caminho, existe uma, ou até mesmo várias, barreiras.